POR VICENTE CRISCIO
Sexta-feira, final do dia. São Paulo chovia e o treino na Academia havia se encerrado alguns minutos atrás. O clima dentro da academia era tão cinza quanto fora. Anunciavam a saída de Deyvid Sacconi, que estava indo para o Nantes.
Muricy
Ramalho nos esperava na sua sala. Com ele Fabio Finelli e Helder Bertazzi. O 3VV, depois de algumas tentativas, conseguia entrevistar o treinador palmeirense.
À primeira vista Muricy parecia pouco à vontade. Eu e Jota Christianini nos esforçávamos para darmos tranquilidade ao entrevistado. Explicamos o que era o 3VV e qual o objetivo da entrevista - mostrar ao torcedor palmeirense quais os desafios do treinador para trazer um título ao Palmeiras.
Sentimos que o treinador relaxou um pouco mais quando avisamos com a pouca modéstia (que também caracteriza Muricy) que o 3VV não era o blog/site de maior audiência dentre a tal "mídia palestrina". Mas seguramente tinha a audiência mais qualificada; como outras...
Era uma entrevista de meia hora. Ficamos quase duas. Nela ouvimos coisas que há menos de um ano não achávamos que fossemos ouvir da boca do treinador.
Sim, Muricy era palmeirense quando criança.
Vibrou quando descobriu que dividiria o quarto com o ídolo Ademir da Guia, para alegria também de seu pai, o Sr. Ramalho.
Que precisou jogar muita bola para ganhar a primeira bicicleta, como o melhor em campo.
Mas acima de tudo que Muricy é um apaixonado pelo futebol, que está montando um time do Palmeiras e apostando nas nossas categorias de base, e que quer muito, mas muito mesmo, ser campeão brasileiro pelo Verdão. E faz nesta entrevista revelações sobre o futebol brasileiro, como ele acredita que um treinador deva trabalhar, qual o perfil de jogador que a torcida gosta e que está fazendo uma profunda renovação no elenco palmeirense.
Apreciem sem moderação...
***

Vicente Criscio (3VV): Você jogou em que período?
Muricy Ramalho: Profissionalmente de 1972 a 1985.
3VV: E quando se tornou treinador?
MR: Sério mesmo em 1992, porque antes eu
fiz um curso no México e lá eu treinava a garotada. Quando eu voltei para o
Brasil e eu fui treinar no São Paulo em 92. Aí no Brasil eu treinei o
profissional do Guarani. Daí fui prá China.
JOTA: Você no Guarani já era treinador do time
principal?
MR: Sim, porque eu já era técnico do time
principal do São Paulo porque o Telê [Santana] ficou doente, então eu tive que assumir.
Mas aí eu não fui muito bem então fui para o Guarani. Do Guarani fui para
China.
3VV: Como foi essa coisa de virar técnico?
Era um objetivo seu ou foi acontecendo?
MR: A gente se interessava, mas o cara
que vira técnico não faz isso da noite pro dia, entendeu? Não dá para parar de
jogar e virar técnico. Ele tem que ser preparar! Então eu comecei a achar que
estava no fim da carreira daí eu já comecei a pensar nisso. Então fui fazer curso,
ouvir pessoas também, para ver se tinha jeito para isso mesmo.
Para
ser técnico não basta só você ter jogado e essas coisas, mas você tem que ser
um cara que observa as coisas. Você não pode chegar, parar de jogar, e falar “amanhã
vou ser técnico”. Você não consegue.
Se
você parar na frente de 30 caras você tem que ter um argumento, você tem que
ter uma história para conversar com os caras [ jogadores ], então o cara tem
que se preparar para isso. Então não é fácil. Eu comecei a sentir isso no final
da minha carreira que eu estava com um pouco de tempo livre, principalmente no México
que eu fiquei bastante tempo, então eu pensei bastante sobre isso e achei que
dava. Então fui fazer o curso.
3VV: Você parou com que idade?
MR: Eu acho que tinha 31/32 anos. Aí eu
comecei a não receber [ risos ] ... o final da carreira é mais ou menos assim.
Você começa a achar que pode jogar em qualquer lugar, mas assina contrato com
esse e aquele time, aí você tem dificuldades, não tem estrutura, não recebe, então percebe
que é hora mesmo de parar.
3VV: Quem te influenciou como técnico?
MR: O técnico que mais me chamou atenção
foi o [ Rubens ] Minelli . Minelli começou a me dar ensinamentos
na parte tática, no estudo do futebol.
O
Minelli era economista um cara estudado demais. Porque os técnicos antigamente faziam muito o be-a-bá. Depois o futebol começou a evoluir e o Brasil ficou um
pouco para trás. E o Minelli era um cara muito interessado em modificar isso, ainda
mais quando foi para o sul do país porque lá há uma cultura maior do futebol.
Quando ele veio para São Paulo ele trouxe essa coisa, então eu tive a chance de
trabalhar com ele durante três anos. Eu aprendi muito com o Minelli, porque eu
ficava observando o que ele fazia, eu gostava de conversar com ele...
3VV: Eu lembro do Minelli quando foi
bicampeão brasileiro com o Inter (75/76) contando como é que ele treinava a linha do impedimento. Tinha todo um esquema armado que
partia do Figueroa ou Marinho, que eram os zagueiros, então alguém gritava uma palavra chave. Lá
já mostrava toda a disciplina que ele precisava ter de treinamento. Você puxou
um tanto da disciplina dele?
MR: A disciplina tática sim, mas
disciplina no futebol foi do Telê. Por exemplo, o Minelli taticamente era muito
bom, ele inovou o futebol brasileiro em todos os sentidos. O Telê já era mais
comandante. O forte do Telê era comando, dirigir cara famoso, porque não é
fácil dirigir esses caras aí... eles são muito chatos, aquelas coisas. Então
ele era um comandante muito forte e isso eu tentei aprender com ele.
Depois veio o Parreira. Eu fui auxiliar dele por
pouco tempo, porque ele ficou só seis meses no São Paulo, mas eu também aprendi
muito porque o Parreira também é um cara estudioso, um cara que dá muita importância à
parte teórica. E isso é muito importante porque hoje não basta só saber o tático e o técnico, tem que conhecer a parte
teórica também. Então o Parreira nisso é o craque.
Esses caras foram os que me influenciaram bastante. Eu comecei a observá-los e toda
vez que eu tinha essa oportunidade de trabalhar com eles eu agarrava. Tanto é que toda vez que o São
Paulo mandava um técnico embora eu sempre assumia, e assumia bem, mas daí eles
contratavam um técnico de fora. Foi daí que contrataram o Parreira. E nessa ocasião veio o Petraglia aqui, [ Presidente ] do Atlético Paranaense, eles estavam fazendo o Centro
de Treinamento, O Petraglia me procurou e disse: “eu preciso de um cara como você, para
assumir o Atlético”.
Mas
daí eu falei “você vai me desculpar” e era um bom dinheiro na época, porque eu
ganhava pouco aqui, mas falei “você vai me desculpar que não vou perder essa
oportunidade de trabalhar com o Parreira; então eu vou investir na minha
carreira, mas quem sabe outro dia, quem sabe eu possa ser treinador do Atlético”.
O
Parreira era um cara que me ajudou muito, era fora de série também, que foi
muito bom para mim. Então eu investi
muito na minha carreira no começo. E ganhava muito pouco porque eu queria ser um
técnico bom, mas para ser um técnico bom não basta você pegar um time grande e sair treinando. Você pode até durar pouco
tempo, mas você percebe se você não faz um estudo de futebol, os técnicos não duram
muito.
Então começam com um time grande, daqui a pouco se transfere par aum menor, depois vai para a série B, série
C e daí desaparece. Por quê? Porque não se preparam direito! Então no Brasil
todos nós somos técnicos, [ apontando para nós ] você é ele é todos nós sabemos
de futebol. Verdade! Nós sabemos um pouco de futebol mesmo, porque a gente joga
bola, a gente vê futebol todos os dias, então você tem que saber um pouco. Só
que o futebol não é só isso, o futebol você tem que se dedicar tem que ver
televisão o tempo todo, tem que ver time, campeonato, tem que estar muito
informado sobre o mundo. Então futebol não é só isso. Por exemplo, você tem chegar ao clube e ver as
categorias de base entendeu, ou ver se pode ajudar o clube a revelar alguém, se
você pode contratar alguém para jogar, entendeu? Por exemplo agora, trazer um jogador
da base que possa vir para o Palmeiras porque, além de todos os problemas, tem
o problema econômico. Está difícil trazer jogadores, e as pessoas não entendem,
as pessoas querem que traga e acabou, mas só que não é bem assim. É uma
responsabilidade do Presidente, da Diretoria de não prejudicar financeiramente o
clube. Então nisso entra o técnico. Mas entra o técnico por quê?
Porque
tem conhecimento na Europa, tem conhecimento fora do país, e se eu posso trazer
jogador de lá, se eu posso conversar com o jogador para ele diminuir um pouco
as coisas. Então um técnico não é só no domingo e na 4ª feira, o técnico é
durante a semana também. Agora para você fazer isso você tem que estudar,
aprender, e você tem que ser dedicado, viciado em futebol.
3VV: Você vê muito futebol?
MR: Se eu vejo futebol? eu vejo futebol
qualquer hora livre que eu tenho. Eu não posso permitir que um diretor de um
clube ou uma pessoa da imprensa pergunte para mim se eu conheço um time tal no
Japão e eu não conheço, ou um jogador de não sei onde. Por exemplo, no futebol é assim: tem um time que precisa contratar daí tem um
monte de esperto que fala – aqui tem um jogador que é bom prá caramba – mas esse
jogador tem um problema no “cruzado” [ problema de joelho ], jogou muito pouco por
lá, ficou fora tantas partidas. Aí você pergunta: como é que você sabe? Eu vivo
disso, eu tenho que acompanhar.
3VV: Você tem algum banco de dados?
MR: Não tenho, eu tenho tudo na cabeça.
3VV: É mesmo?
MR: Sim, porque eu vejo demais futebol.
Eu vejo qualquer futebol, então eu vejo
A3/A2, vejo Japão, Inglaterra, vejo de tudo. Então, por exemplo, não se pode
admitir um técnico de hoje, vem o Presidente do clube perguntar de tal jogador e
ele falar “não sei”. Isso é um absurdo! Por quê? Porque você tem internet, você
tem televisão, tem transmissão de campeonatos, então é um absurdo. E isso já ajuda um
clube, então por isso que, por exemplo, alguns técnicos permanecem um pouco
mais na ponta do que outros. Os
técnicos que estão permanecendo na ponta são os caras que nunca param de
estudar, nunca param de ver futebol são dedicados, são viciados em futebol.
3VV: Até pegando esse gancho que você
está falando de montagem de elenco, você tem uma experiência grande na sua
carreira, principalmente nesses últimos anos de montar elencos, vamos dizer
assim, duradouros você mantém uma estrutura, uma raiz de time. Inclusive
eu acho que nesse ano, pelo menos nos últimos 4/5 anos no Palmeiras a gente
percebe um elenco titular que está mantendo a base do ano passado. Como é que
um técnico, não é só ele eu sei que também tem toda a estrutura dele em volta
disso, mas como é que um técnico monta esse elenco para ser um elenco mais
constante ou pelo menos manter a principal base? Isso daí começa quando? Isso
começa no meio do ano? Começa no último trimestre do ano? Como é isso?
MR: Não, tem que começar antes. Aqui a
gente tem que começar antes e não quando acaba o campeonato. Mas o mais importante é
você ter a informação de quem você vai trazer. Então por exemplo tem que saber:
qual o perfil do clube? Os clubes não são iguais. Tem jogador que serve para o
Palmeiras, mas não serve para outro time ou serve para outro time, mas não
serve para o Palmeiras. Funciona
assim, você precisa ver o perfil do clube.
Aqui
por exemplo: o que a torcida gosta? Eu já vi que a torcida gosta do cara que se
dedica ao máximo, vai lá dá a vida no campo, às vezes o cara nem é muito
técnico, mas o torcedor do Palmeiras gosta de cara assim. Como o Pierre, que é “raçudo”,
então isso chama atenção. Como é que você faz? Como você tem essa informação? Então
é isso que eu falei agora que você tem que ter a informação. Você não pode fazer o contrato de um jogador
importante que leva três anos mais ou menos, você pode trazer um jogador que
você não sabe quem é o cara.
Por
exemplo, aqui no Palmeiras o nosso ambiente é ótimo. Esse time que está aí [
apontava na direção dos vestiários ] é muito bom, de um nível alto de
escolaridade, de cabeça, de tudo, então toda vez que oferecem um jogador para a
gente vamos atrás de todas as informações do cara. A gente não quer sair do
perfil nosso do time. Você vê muito pouco comentar que viu o jogador do
Palmeiras não sei onde, na balada é difícil você ver.
Esse
perfil é do grupo que está aí então a 1ª coisa que a gente faz é analisar o
perfil do jogador. Daí vem a parte física. Por quê? Porque você encontra
jogador que tem coisas escondidas tem problema muscular, tem problema de
contusão, daí você pega o histórico do jogador, que hoje todo clube tem. Então
você vai ali ao departamento médico do Palmeiras – eu quero saber como está o
Diego Souza? Quantas vezes o Diego Souza
entrou aqui? Custo benefício dele você tem que ter.
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"Esse time que está aí é muito bom, de um
nível alto de escolaridade, de cabeça, de tudo, então toda vez que oferecem
um jogador para a gente vamos atrás de todas as informações do cara. A gente
não quer sair do perfil do nosso time."
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Então,
vou dar um exemplo quando fomos contratar no São Paulo, Jorge Wagner. Os caras
não gostavam muito dele aí [ apontando com a cabeça em direção ao muro vizinho
]. Eu falei – traz, traz porque é jogador onde o custo benefício dele é muito bom
– por quê? Porque é jogador que nunca entra em departamento médico, então ela
joga muitos jogos.
Então você não pode dizer que vai
contratar determinado jogador, e você não sabe nem o histórico dele. Aí ele chega
aqui tem uma contusão não joga mais. Então você vai ali ao computador do departamento
médico vê quanto tempo ele ficou lá, vê quanto tempo ele jogou. Hoje isso é
importante porque jogador é muito caro, muito caro, e o jogador não pode
ficar parado. É como avião que tem que estar voando; se ele ficar na terra ele
está dando prejuízo. Então jogador de futebol é igual. Eu trabalhei no Internacional
fiquei 3 anos, no São Paulo fiquei 3 anos e meio e jogadores comigo quase 3
anos e pouco, todos com esse perfil. O perfil de atleta, perfil de homem, e claro, tem
que saber jogar, não basta só ter isso. Mas essas informações são importantes. Às
vezes o cara fala – esse jogador já passou não sei aonde – mas meu, pega o
histórico do cara vê quanto que ele jogou durante um ano nesse time, vê quantos
gols o cara fez. Hoje está tudo aí você acessa no computador vê o cara lá no
Japão.
Tem empresário que nem oferece prá gente, ele oferece para a diretoria, mas a diretoria não tem tempo de analisar, de estudar. Mas eu
tenho tempo porque estou fazendo a minha parte. Então o empresário fala com o diretor e diz que
certo jogador é bom; mas quando era bom? Há uns dois anos atrás? Então eu quero ver
hoje. Ele ficou quanto tempo em um time? jogou pouco? quanto tempo está
contundido? não faz gol?
Então essa é a obrigação do cara, mas agora tem técnico
que não se interessa por isso. Então quer agradar o diretor fala “traz mesmo”,
por quê? Porque o diretor tem essa vaidade de dizer “eu que trouxe o cara”. É
verdade! Então o técnico tem que ter a obrigação de orientar, e dizer “não traz
porque não vai servir”.
3VV: Você já foi obrigado a aceitar
jogador?
MR: Sim, pelos amigos aí [ olhando para
a direção do muro do vizinho; todos riem
] .
3VV: Existe a lenda que você gosta de
jogador com biotipo mais forte, mais alto.
MR: Isso é mentira! Olha o time que está
jogando aí, pelo amor de deus isso é uma mentira grande! Acontece que as pessoas
no futebol falam muita bobagem, mas eu vou te contar uma história. Em 91/92
teve um campeonato dente de leite onde o Palmeiras foi campeão foi lá em Limeira.
Eu fui dar o pontapé inicial. E o Palmeiras tinha um jogador chamado Ferrugem, lembra?
3VV: Lembro.
MR: Ferrugem era muito grande para a
categoria que estava jogando em Limeira, então houve um barulho danado que o
Palmeiras ganhou e ganhou fácil o campeonato.
JOTA: A taça chama-SE Taça Muricy Ramalho,
e está lá na sala de troféus.
MR: Isso daí, e eu fui dar o pontapé
inicial. Então o Palmeiras ganhou fácil o campeonato. Então estavam desconfiados
do Ferrugem, achando que era “gato”. E os patrocinadores pediram um estudo na USP.
Por que o cara era desse tamanho? [ risos ] Verdade.
E
aí? Chegaram à conclusão que o povo brasileiro está crescendo. Quer ver outro
exemplo. Eu sempre trago uma vez por semana os meninos das categorias de base
para treinarem aqui. Vocês viram o treinamento hoje? Nós trouxemos o o
Wellington. Ele tem 18 anos e 1 metro e 89!! Então não é que eu quero, eu não
dei nada para ele crescer [ risos ] mas
é assim. Hoje os caras comem melhor, treinam melhor, não é que eu goste, mas os
caras são assim.
JOTA: Ele jogou a Copa São Paulo...
MR: É isso mesmo. Jogou a Copa São Paulo,
muito bom. Como o Gualberto que é grande também, mas tem que crescer mais a
parte muscular. Mas eu gosto de jogador que fisicamente suporte o que é o
futebol hoje. Hoje o futebol é muito forte tem muita pegada, correria. O
jogador frágil hoje, até tem aqui, mas não joga. Por quê? Porque ele é frágil
toma uma porrada vai para o médico. Então o jogador tem que ser bom, mas tem
que ser fisicamente forte, não é porque eu gosto, mas o futebol hoje é assim. [
Resignado ] O futebol é assim, “cria coisas”... mas não é isso não, os
jogadores são assim.
HB: Quais são os cuidados que você tem
com a base? Porque a torcida vê a Copinha por exemplo e vê que tem 5 jogadores
que pode jogar no time titular.
MR: Porque hoje é gostoso você falar da
base, você não quer falar lá de cima, mas não é fácil jogar. Mas todo clube é
assim...
HB: Como assim?
MR: Todo
lugar é igual!! Veja como é que é, as pessoas esquecem, mas eu não. Há 3
anos, a imprensa pressionou porque o time do Corinthians estava uma merda, e
diziam “tem que pôr uns moleques lá”. Aquele cara do canal 11, como é que chama?
Todos: Chico Lang.
MR: Queimaram todo mundo.
HB: O que acontece?
MR: É que não pode cara! Não pode, tem que tomar
todos os cuidados, tem que preparar o cara.
Essa camisa [ pega uma camisa do Palmeiras que estava na mesa ] é pesada. Você
no pode simplesmente colocar o cara de uma vez. O moleque entrou agora 4ª
feira, o Gabriel [ Silva ], porque ele já estava aqui. Ele treinou muito antes
com os profissionais. Então ele já estava aqui. Então você não pode chegar
simplesmente porque o jogador arrebentou na Copinha e colocar em campo. Não
pode porque essa camisa é pesada, você não tem idéia.
HB: É o psicológico?
MR: Claro, a camisa é pesada, são
jogadores de 18 anos. E ainda machucou porque além da parte física tem o
estresse, então aquela contusão que ele tem é a conseqüência da copa São Paulo e
também do estresse. Então você tem que tomar cuidado com a pressão. O pessoal
fala: põe! Mas a gente só vê quem chega, mas o caminho é muito longo.
E
sabe por quê? Porque técnicos mal
preparados, técnicos que aceitam pressão de dirigente – tira esse, põe aqui. Mas
não é assim isso daqui é muito pesado. Então todo lugar que eu fui é assim. Com
o Nilmar [ Inter ] foi assim, com todos eles.
[
De repente toca o celular e Muricy pede licença para atender. Ele diz: “ligação
do Presidente, tenho que atender”. A conversa extremamente cordial e bem
humorada dura alguns minutos e Muricy avisa que estava em entrevista para o 3VV
e pede para ligar depois. ] .
JOTA: A gente acompanha futebol há tantos
anos, você fez duas afirmações que eu nunca tinha ouvido de um técnico, pelo
menos aqui que eu acompanho mais de perto. Você falou em custo benefício, nunca
ouvi um técnico falar isso. Você identificou uma coisa que para quem como eu é
historiador, uma mudança radical que nós
não estamos acostumados. Você falou que hoje a torcida quer um jogador raçudo.
E você sabe muito bem do tempo que você jogava que a torcida exigia exatamente o
contrário, então tinha que ter técnica.
MR: Claro.
JOTA: Aqui tinha que ser técnico para cair
no gosto da torcida. Poderia ser quem fosse, se não fosse um jogador técnico,
não virava ídolo. Então você identificou aí duas mudanças. Dentro da pergunta
do jogador da base para quem é leigo como nós, somos metidos [ risos ] mas
somos leigos. Para quem é leigo como é que você identifica? Porque para a gente
vendo um jogo de juvenil você acha três caras iguais. Que cuidados que você
tem? Como é que você identifica que esse vai ficar esse vai ficar no caminho e
esse nem compensa investir?
MR: Não é uma matemática tão certa assim
porque todo mundo erra. Quando às vezes você pensa em um juvenil que você
aposta em um dá outro. Já aconteceu muito disso porque é um absurdo o que muda um
jogador, o que ele oscila. Por exemplo, o Gualberto. O Gualberto é um jogador que
era volante da base que estava quase para ser mandado embora. Ele foi para Porto Alegre [ disputar um torneio
entre categorias de base ] e o colocaram de zagueiro. Aqui ele já tinha
treinado de zagueiro com a gente. Eu conheci aquele time que treinou aqui foi
para lá, mas a expectativa maior foi em cima do João. Eu me interessei só prá
ver aquele campeonato – porque o time
não era bom – não dava para ver direito, mas foi por causa do Gualberto só. Por
quê?
3VV: Você já tinha essa impressão dele?
MR: Eu fui ver o jogador. Ele treinava
aqui comigo, mas eu queria ver como é que ele iria se portar porque aqui no
treino não tem estresse, não tem torcida, não tem adversário. Então eu queria
ver noutra situação. Por quê? Porque ele tem um biotipo que chama atenção. Um
jogador comprido, rápido, técnico, ele é muito técnico. Então você não pode
simplesmente desistir de um cara desses, você não pode desistir e estavam quase
desistindo dele.
JOTA: No jogo com o Mogi Mirim ele parecia
um veterano. A camisa não pesou nele?
MR: Aquele negócio da expulsão [ contra o Ituano ]
foi coisa de novato. Ele também escorregou por causa do gramado, o juiz também
foi rigoroso. Mas isso é coisa se novato qualquer um pode ter. Mas o que ele jogou
nos primeiros 45 minutos é brincadeira! Um jogador que eu chamei no dia e falei "você
vai jogar", o Leo estava em dúvida foi fazer um teste e não dava.
Então
o que acontece? é o que eu falo ser viciado em futebol. Estava de férias estava
com a cabeça desse tamanho porque tinha perdido um campeonato que era
importante para o clube, para mim para todo mundo [ Brasileirão 2009 ]. Então eu
até podia dizer, “não vou ver porra nenhuma porque estou de saco cheio de
futebol”, mas eu fui ver.
E
assim, o técnico tem que ser viciado. Tem que ver tudo. Acompanhar tudo, saber
o que acontece nas bases. Por quê? Porque o técnico tem que ter o pensamento
dele. Nesse caso, me mandaram outro para Atibaia [ referindo-se ao início do
ano, na pré-temporada, quando mandaram um outro garoto para treinar com os
titulares ].
Me
mandaram outro, mas eu falei [ agora se entusiasma ] “eu quero o Gualberto
manda ele para cá, não me interessa me manda o Gualberto para cá”. Aí falaram,
“tá acabando o contrato”. Porra não interessa. Manda o Gualberto. Pode ser que
eu esteja aí tendo um jogador importante para o futuro. Então é uma coisa que
não é se você acha que vai dar certo ou não, mas é você ver e ser persistente!
Não é só ouvir os outros, mas ir lá acompanhar, ver, porque cada um tem a sua
paixão. É assim que funciona.
Então
o que é que faz um técnico. Eu vi aquele campeonato que o nosso time que [
marcando nos dedos da mão ] 1. não era bom e 2. não chamava atenção para a
gente; mas não me interessava se o time era bom ou não. Mas tinha um jogador
interessante pro Palmeiras. Se eu não vejo o torneio lá no Sul eu não trago o
Gualberto. Se eu não trago o Gualberto, amanhã ou depois o garoto tem o passe
livre, e o Palmeiras perde um jogador que pode ganhar título, render pro clube.
Pode até ser que ele não seja tudo isso que vimos também, mas a 1ª amostra dele
foi muito forte! Em um time grande no Parque Antártica com a torcida exigente
para caramba, dura, um zagueiro que não pode nunca errar, no primeiro jogo! Ele
foi bem demais.
JOTA: Ele tem 40 dias com o zagueiro, quem
mudou ele?
MR: Ele que mudou. Quando nós fomos para
Atibaia, por isso que é importante. Eu faço isso desde que fui para o Internacional.
Toda semana no treino vem ou o juvenil ou infantil ou Junior treinar com a
gente aqui. Então eu faço toda semana isso, mas não chama atenção porque eu não
faço barulho para nada. O que acontece? Já conhecia mais ou menos os jogadores,
mas só que aqui na nossa salinha que fomos para Atibaia eu conversei com o
Parraga aqui (Jorge Porto Iparraguirre, das categorias de base). – Parraga, e aí?
Ele
falou: - eu tenho um jogador que eu vou preparar para ser um baita jogador. Eu
falei: - eu já sei quem é, é o Gualberto.
-
É o Gualberto mesmo.
-
Você não vai preparar eu que vou preparar porque vou levar ele.
Acontece
que as pessoas veem as coisas diferentes. Não é que você conhece mais do que
ninguém, mas você se interessa pelas coisas, você se interessa que o Palmeiras
está precisando. Esse foi o argumento da diretoria, eu não posso chegar aqui e
exigir da Diretoria– eu quero seis, sete jogadores – porque saiu um monte [ e
fazendo ar sério ] e vai sair mais. Isso foi o que nós conversamos. A reformulação
vai ser grande. Então o Palmeiras não
tem como trazer cinco, seis, não tem, então o que foi conversado na diretoria?
Nós fizemos várias reuniões que nós temos que revelar jogadores. O Palmeiras
tem que ter jogador do Palmeiras.
A
parceria é super importante [ referindo-se à Traffic ] mas o Palmeiras tem que
ter jogador nosso [ apontando o dedo para o chão da Academia ] , está certo?
Precisa ter jogador do Palmeiras.
JOTA: Mas isso é tranqüilo? A revelação
demora um pouco, mas a curto você está tranqüilo que a gente possa...
MR: [ interrompendo ] ... eu acho que essa safra que está aí e muito boa! A gente tem
que ter paciência com ela, a gente não pode queimar essa safra. Outro dia nessa
semana eu trouxe o Juninho, que é o técnico da Copa São Paulo.
JOTA: Que, aliás, fez um belo trabalho.
|
“A
parceria é super importante mas o Palmeiras tem que ter jogador nosso, está
certo? Precisa ter jogador do Palmeiras.”
|
MR: Está fazendo um bom trabalho faz
tempo, então eu fiquei conversando com ele quase uma hora ali [ apontando no
sofá da sala ] porque tenho a idéia de trazer alguns moleques, mas queria saber
o que ele acha, porque não estou lá no dia a dia. Quem manda é o técnico do dia
a dia. Então eu falei para ele que tenho a visão desse, desse e desse, o que
você acha? Então ele falou que eu tinha razão desse e desse.
3VV: Você tem ascendência sobre as
categorias de base?
MR: Não, aqui não é assim, mas eu
acompanho muito as categorias de base e respeito muito o que os treinadores
pensam e fazem.
3VV: Por exemplo, o [ Carlos ] Bianchi,
quando era treinador no Boca fazia questão de ter no contrato que ele mandava
desde as categorias de base até o time profissional. Ele queria muito
acompanhar o jogador mais ou menos nessa linha até chegar ao ponto de querer
influenciar no padrão tático que deveria ser o mesmo para as categorias de base
até o profissional. Você gosta desse modelo? Você acredita nesse modelo? Você
acha que faz sentido?
MR: Primeiro que acho que técnico não
precisa disso. Já me falaram várias vezes se eu queria isso e eu não quis. Mas
lancei vários jogadores, vários. E é obrigação do técnico, mas eu acho meio
esquisito porque alguns técnicos ganham com isso...
3VV: [ interrompendo ] o Bianchi tinha
parte da remuneração pela venda dos jogadores.
MR: É eu sei. Mas isso daí é meio esquisito.
Ele pode querer lançar o seu, mas não lançar o outro jogador, uma puta confusão.
Aí aparece um garoto bom que não veio da base e ele não vai querer lançar...
Agora eu acho obrigação do técnico acompanhar as categorias de base. Então ele
não tem que ter isso no contrato, mas tem que acompanhar.
Eu
não tenho no contrato, mas eu acompanho a base, eu trago o cara para treinar comigo. Isso é uma coisa minha,
não me pediram para fazer, ninguém pediu para eu fazer, mas eu faço porque eu
acho que é interessante para o clube porque é só assim que se descobre jogador.
Eu conversei com o Juninho aqui um tempão, e perguntei de alguns jogadores. Tem
jogador [ do time da Copinha ] que está no ponto, mas tem jogador que não. O
Ramos por exemplo que é um jogador interessante. Mas ele às vezes participa pouco
do jogo. Repara que o cara na televisão às vezes fica 5 minutos sem falar o
nome dele. Isso não pode. Então só pega
a bola, dribla e chuta?
Então
o jogador tem que ser orientado, tem que treinar, porque não pode um jogador ser
só de uma jogada. O treinador adversário assiste o jogo e fala – está vendo aquele
número 10? Ele só tem uma jogada que ele arruma com o pé esquerdo e solta a porrada,
então marca essa jogada.
Então
ele tem que ser orientado, treinar jogada em profundidade, treinar jogada em diagonal,
aprender a vir buscar mais a bola.
JOTA: E consegue mudar isso?