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03 de Fevereiro de 2010
Muricy Ramalho

POR VICENTE CRISCIO

Sexta-feira, final do dia. São Paulo chovia e o treino na Academia havia se encerrado alguns minutos atrás. O clima dentro da academia era tão cinza quanto fora. Anunciavam a saída de Deyvid Sacconi, que estava indo para o Nantes.

Muricy Ramalho nos esperava na sua sala. Com ele Fabio Finelli e Helder Bertazzi. O 3VV, depois de algumas tentativas, conseguia entrevistar o treinador palmeirense.

À primeira vista Muricy parecia pouco à vontade. Eu e Jota Christianini nos esforçávamos para darmos tranquilidade ao entrevistado. Explicamos o que era o 3VV e qual o objetivo da entrevista - mostrar ao torcedor palmeirense quais os desafios do treinador para trazer um título ao Palmeiras.

Sentimos que o treinador relaxou um pouco mais quando avisamos com a pouca modéstia (que também caracteriza Muricy) que o 3VV não era o blog/site de maior audiência dentre a tal "mídia palestrina". Mas seguramente tinha a audiência mais qualificada; como outras...

Era uma entrevista de meia hora. Ficamos quase duas. Nela ouvimos coisas que há menos de um ano não achávamos que fossemos ouvir da boca do treinador.

Sim, Muricy era palmeirense quando criança.

Vibrou quando descobriu que dividiria o quarto com o ídolo Ademir da Guia, para alegria também de seu pai, o Sr. Ramalho.

Que precisou jogar muita bola para ganhar a primeira bicicleta, como o melhor em campo.

Mas acima de tudo que Muricy é um apaixonado pelo futebol, que está montando um time do Palmeiras e apostando nas nossas categorias de base, e que quer muito, mas muito mesmo, ser campeão brasileiro pelo Verdão. E faz nesta entrevista revelações sobre o futebol brasileiro, como ele acredita que um treinador deva trabalhar, qual o perfil de jogador que a torcida gosta e que está fazendo uma profunda renovação no elenco palmeirense.

Apreciem sem moderação...

***

Vicente Criscio (3VV): Você jogou em que período?

Muricy Ramalho: Profissionalmente de 1972 a 1985. 

3VV: E quando se tornou treinador?

MR: Sério mesmo em 1992, porque antes eu fiz um curso no México e lá eu treinava a garotada. Quando eu voltei para o Brasil e eu fui treinar no São Paulo em 92. Aí no Brasil eu treinei o profissional do Guarani. Daí fui prá China. 

JOTA: Você no Guarani já era treinador do time principal?

MR: Sim, porque eu já era técnico do time principal do São Paulo porque o Telê [Santana] ficou doente, então eu tive que assumir. Mas aí eu não fui muito bem então fui para o Guarani. Do Guarani fui para China. 

3VV: Como foi essa coisa de virar técnico? Era um objetivo seu ou foi acontecendo?

MR: A gente se interessava, mas o cara que vira técnico não faz isso da noite pro dia, entendeu? Não dá para parar de jogar e virar técnico. Ele tem que ser preparar! Então eu comecei a achar que estava no fim da carreira daí eu já comecei a pensar nisso. Então fui fazer curso, ouvir pessoas também, para ver se tinha jeito para isso mesmo.

Para ser técnico não basta só você ter jogado e essas coisas, mas você tem que ser um cara que observa as coisas. Você não pode chegar, parar de jogar, e falar “amanhã vou ser técnico”. Você não consegue. 

Se você parar na frente de 30 caras você tem que ter um argumento, você tem que ter uma história para conversar com os caras [ jogadores ], então o cara tem que se preparar para isso. Então não é fácil. Eu comecei a sentir isso no final da minha carreira que eu estava com um pouco de tempo livre, principalmente no México que eu fiquei bastante tempo, então eu pensei bastante sobre isso e achei que dava. Então fui fazer o curso.

3VV: Você parou com que idade?

MR: Eu acho que tinha 31/32 anos. Aí eu comecei a não receber [ risos ] ... o final da carreira é mais ou menos assim. Você começa a achar que pode jogar em qualquer lugar, mas assina contrato com esse e aquele time, aí você tem dificuldades, não tem estrutura, não recebe, então percebe que é hora mesmo de parar.

3VV: Quem te influenciou como técnico?

MR: O técnico que mais me chamou atenção foi o [ Rubens ] Minelli . Minelli começou a me dar ensinamentos na parte tática, no estudo do futebol.

O Minelli era economista um cara estudado demais. Porque os técnicos antigamente faziam muito o be-a-bá. Depois o futebol começou a evoluir e o Brasil ficou um pouco para trás. E o Minelli era um cara muito interessado em modificar isso, ainda mais quando foi para o sul do país porque lá há uma cultura maior do futebol. Quando ele veio para São Paulo ele trouxe essa coisa, então eu tive a chance de trabalhar com ele durante três anos. Eu aprendi muito com o Minelli, porque eu ficava observando o que ele fazia, eu gostava de conversar com ele... 

3VV: Eu lembro do Minelli quando foi bicampeão brasileiro com o Inter (75/76) contando como é que ele treinava a linha do impedimento. Tinha todo um esquema armado que partia do Figueroa ou Marinho, que eram os zagueiros, então alguém gritava uma palavra chave. Lá já mostrava toda a disciplina que ele precisava ter de treinamento. Você puxou um tanto da disciplina dele?

MR: A disciplina tática sim, mas disciplina no futebol foi do Telê. Por exemplo, o Minelli taticamente era muito bom, ele inovou o futebol brasileiro em todos os sentidos. O Telê já era mais comandante. O forte do Telê era comando, dirigir cara famoso, porque não é fácil dirigir esses caras aí... eles são muito chatos, aquelas coisas. Então ele era um comandante muito forte e isso eu tentei aprender com ele.

Depois  veio o Parreira. Eu fui auxiliar dele por pouco tempo, porque ele ficou só seis meses no São Paulo, mas eu também aprendi muito porque o Parreira também é um cara estudioso, um cara que dá muita importância à parte teórica. E isso é muito importante porque hoje não basta só saber o tático e o técnico, tem que conhecer a parte teórica também. Então o Parreira nisso é o craque.

Esses caras foram os que me influenciaram bastante. Eu comecei a observá-los e toda vez que eu tinha essa oportunidade de trabalhar com eles eu agarrava. Tanto é que toda vez que o São Paulo mandava um técnico embora eu sempre assumia, e assumia bem, mas daí eles contratavam um técnico de fora. Foi daí que contrataram o Parreira. E nessa ocasião veio o Petraglia aqui, [ Presidente ] do Atlético Paranaense, eles estavam fazendo o Centro de Treinamento, O Petraglia me procurou e disse: “eu preciso de um cara como você, para assumir o Atlético”. 

Mas daí eu falei “você vai me desculpar” e era um bom dinheiro na época, porque eu ganhava pouco aqui, mas falei “você vai me desculpar que não vou perder essa oportunidade de trabalhar com o Parreira; então eu vou investir na minha carreira, mas quem sabe outro dia, quem sabe eu possa ser treinador do Atlético”.

O Parreira era um cara que me ajudou muito, era fora de série também, que foi muito bom para mim. Então  eu investi muito na minha carreira no começo. E ganhava muito pouco porque eu queria ser um técnico bom, mas para ser um técnico bom não basta você pegar um time grande e sair treinando. Você pode até durar pouco tempo, mas você percebe se você não faz um estudo de futebol, os técnicos não duram muito.

Então começam com um time grande, daqui a pouco se transfere par aum menor, depois vai para a série B, série C e daí desaparece. Por quê? Porque não se preparam direito! Então no Brasil todos nós somos técnicos, [ apontando para nós ] você é ele é todos nós sabemos de futebol. Verdade! Nós sabemos um pouco de futebol mesmo, porque a gente joga bola, a gente vê futebol todos os dias, então você tem que saber um pouco. Só que o futebol não é só isso, o futebol você tem que se dedicar tem que ver televisão o tempo todo, tem que ver time, campeonato, tem que estar muito informado sobre o mundo. Então futebol não é só isso.  Por exemplo, você tem chegar ao clube e ver as categorias de base entendeu, ou ver se pode ajudar o clube a revelar alguém, se você pode contratar alguém para jogar, entendeu? Por exemplo agora, trazer um jogador da base que possa vir para o Palmeiras porque, além de todos os problemas, tem o problema econômico. Está difícil trazer jogadores, e as pessoas não entendem, as pessoas querem que traga e acabou, mas só que não é bem assim. É uma responsabilidade do Presidente, da Diretoria de não prejudicar financeiramente o clube. Então nisso entra o técnico. Mas entra o técnico por quê?

Porque tem conhecimento na Europa, tem conhecimento fora do país, e se eu posso trazer jogador de lá, se eu posso conversar com o jogador para ele diminuir um pouco as coisas. Então um técnico não é só no domingo e na 4ª feira, o técnico é durante a semana também. Agora para você fazer isso você tem que estudar, aprender, e você tem que ser dedicado, viciado em futebol.

3VV: Você vê muito futebol?

MR: Se eu vejo futebol? eu vejo futebol qualquer hora livre que eu tenho. Eu não posso permitir que um diretor de um clube ou uma pessoa da imprensa pergunte para mim se eu conheço um time tal no Japão e eu não conheço, ou um jogador de não sei onde. Por exemplo, no futebol é assim: tem um time que precisa contratar daí tem um monte de esperto que fala – aqui tem um jogador que é bom prá caramba – mas esse jogador tem um problema no “cruzado” [ problema de joelho ], jogou muito pouco por lá, ficou fora tantas partidas. Aí você pergunta: como é que você sabe? Eu vivo disso, eu tenho que acompanhar.

3VV: Você tem algum banco de dados?

MR: Não tenho, eu tenho tudo na cabeça.

3VV: É mesmo?

MR: Sim, porque eu vejo demais futebol. Eu vejo qualquer futebol,  então eu vejo A3/A2, vejo Japão, Inglaterra, vejo de tudo. Então, por exemplo, não se pode admitir um técnico de hoje, vem o Presidente do clube perguntar de tal jogador e ele falar “não sei”. Isso é um absurdo! Por quê? Porque você tem internet, você tem televisão, tem transmissão de campeonatos, então é um absurdo. E isso já ajuda um clube, então por isso que, por exemplo, alguns técnicos permanecem um pouco mais na ponta do que outros. Os técnicos que estão permanecendo na ponta são os caras que nunca param de estudar, nunca param de ver futebol são dedicados, são viciados em futebol.

3VV: Até pegando esse gancho que você está falando de montagem de elenco, você tem uma experiência grande na sua carreira, principalmente nesses últimos anos de montar elencos, vamos dizer assim, duradouros você mantém uma estrutura, uma raiz de time. Inclusive eu acho que nesse ano, pelo menos nos últimos 4/5 anos no Palmeiras a gente percebe um elenco titular que está mantendo a base do ano passado. Como é que um técnico, não é só ele eu sei que também tem toda a estrutura dele em volta disso, mas como é que um técnico monta esse elenco para ser um elenco mais constante ou pelo menos manter a principal base? Isso daí começa quando? Isso começa no meio do ano? Começa no último trimestre do ano? Como é isso?

MR: Não, tem que começar antes. Aqui a gente tem que começar antes e não quando acaba o campeonato. Mas o mais importante é você ter a informação de quem você vai trazer. Então por exemplo tem que saber: qual o perfil do clube? Os clubes não são iguais. Tem jogador que serve para o Palmeiras, mas não serve para outro time ou serve para outro time, mas não serve para o Palmeiras. Funciona assim, você precisa ver o perfil do clube. 

Aqui por exemplo: o que a torcida gosta? Eu já vi que a torcida gosta do cara que se dedica ao máximo, vai lá dá a vida no campo, às vezes o cara nem é muito técnico, mas o torcedor do Palmeiras gosta de cara assim. Como o Pierre, que é “raçudo”, então isso chama atenção. Como é que você faz? Como você tem essa informação? Então é isso que eu falei agora que você tem que ter a informação.  Você não pode fazer o contrato de um jogador importante que leva três anos mais ou menos, você pode trazer um jogador que você não sabe quem é o cara.

Por exemplo, aqui no Palmeiras o nosso ambiente é ótimo. Esse time que está aí [ apontava na direção dos vestiários ] é muito bom, de um nível alto de escolaridade, de cabeça, de tudo, então toda vez que oferecem um jogador para a gente vamos atrás de todas as informações do cara. A gente não quer sair do perfil nosso do time. Você vê muito pouco comentar que viu o jogador do Palmeiras não sei onde, na balada é difícil você ver. 

Esse perfil é do grupo que está aí então a 1ª coisa que a gente faz é analisar o perfil do jogador. Daí vem a parte física. Por quê? Porque você encontra jogador que tem coisas escondidas tem problema muscular, tem problema de contusão, daí você pega o histórico do jogador, que hoje todo clube tem. Então você vai ali ao departamento médico do Palmeiras – eu quero saber como está o Diego Souza?  Quantas vezes o Diego Souza entrou aqui? Custo benefício dele você tem que ter.

"Esse time que está aí é muito bom, de um nível alto de escolaridade, de cabeça, de tudo, então toda vez que oferecem um jogador para a gente vamos atrás de todas as informações do cara. A gente não quer sair do perfil do nosso time."

Então, vou dar um exemplo quando fomos contratar no São Paulo, Jorge Wagner. Os caras não gostavam muito dele aí [ apontando com a cabeça em direção ao muro vizinho ]. Eu falei – traz, traz porque é jogador onde o custo benefício dele é muito bom – por quê? Porque é jogador que nunca entra em departamento médico, então ela joga muitos jogos.


Então você não pode dizer que vai contratar determinado jogador, e você não sabe nem o histórico dele. Aí ele chega aqui tem uma contusão não joga mais. Então você vai ali ao computador do departamento médico vê quanto tempo ele ficou lá, vê quanto tempo ele jogou. Hoje isso é importante porque jogador é muito caro, muito caro, e o jogador não pode ficar parado. É como avião que tem que estar voando; se ele ficar na terra ele está dando prejuízo. Então jogador de futebol é igual. Eu trabalhei no Internacional fiquei 3 anos, no São Paulo fiquei 3 anos e meio e jogadores comigo quase 3 anos e pouco, todos com esse perfil. O perfil de atleta, perfil de homem, e claro, tem que saber jogar, não basta só ter isso. Mas essas informações são importantes. Às vezes o cara fala – esse jogador já passou não sei aonde – mas meu, pega o histórico do cara vê quanto que ele jogou durante um ano nesse time, vê quantos gols o cara fez. Hoje está tudo aí você acessa no computador vê o cara lá no Japão.

Tem empresário que nem oferece prá gente, ele oferece para a diretoria, mas a diretoria não tem tempo de analisar, de estudar. Mas eu tenho tempo porque estou fazendo a minha parte. Então o empresário fala com o diretor e diz que certo jogador é bom; mas quando era bom? Há uns dois anos atrás? Então eu quero ver hoje. Ele ficou quanto tempo em um time?  jogou pouco? quanto tempo está contundido? não faz gol?

Então essa é a obrigação do cara, mas agora tem técnico que não se interessa por isso. Então quer agradar o diretor fala “traz mesmo”, por quê? Porque o diretor tem essa vaidade de dizer “eu que trouxe o cara”. É verdade! Então o técnico tem que ter a obrigação de orientar, e dizer “não traz porque não vai servir”.

3VV: Você já foi obrigado a aceitar jogador?

MR: Sim, pelos amigos aí [ olhando para a direção do muro do vizinho; todos riem  ] .

3VV: Existe a lenda que você gosta de jogador com biotipo mais forte, mais alto.

MR: Isso é mentira! Olha o time que está jogando aí, pelo amor de deus isso é uma mentira grande! Acontece que as pessoas no futebol falam muita bobagem, mas eu vou te contar uma história. Em 91/92 teve um campeonato dente de leite onde o Palmeiras foi campeão foi lá em Limeira. Eu fui dar o pontapé inicial. E o  Palmeiras tinha um jogador chamado Ferrugem, lembra?

3VV: Lembro. 

MR: Ferrugem era muito grande para a categoria que estava jogando em Limeira, então houve um barulho danado que o Palmeiras ganhou e ganhou fácil o campeonato. 

JOTA: A taça chama-SE Taça Muricy Ramalho, e está lá na sala de troféus.

MR: Isso daí, e eu fui dar o pontapé inicial. Então o Palmeiras ganhou fácil o campeonato. Então estavam desconfiados do Ferrugem, achando que era “gato”. E os patrocinadores pediram um estudo na USP. Por que o cara era desse tamanho? [ risos ] Verdade. 

E aí? Chegaram à conclusão que o povo brasileiro está crescendo. Quer ver outro exemplo. Eu sempre trago uma vez por semana os meninos das categorias de base para treinarem aqui. Vocês viram o treinamento hoje? Nós trouxemos o o Wellington. Ele tem 18 anos e 1 metro e 89!! Então não é que eu quero, eu não dei nada para ele crescer [ risos ]  mas é assim. Hoje os caras comem melhor, treinam melhor, não é que eu goste, mas os caras são assim. 

JOTA: Ele jogou a Copa São Paulo...

MR: É isso mesmo. Jogou a Copa São Paulo, muito bom. Como o Gualberto que é grande também, mas tem que crescer mais a parte muscular. Mas eu gosto de jogador que fisicamente suporte o que é o futebol hoje. Hoje o futebol é muito forte tem muita pegada, correria. O jogador frágil hoje, até tem aqui, mas não joga. Por quê? Porque ele é frágil toma uma porrada vai para o médico. Então o jogador tem que ser bom, mas tem que ser fisicamente forte, não é porque eu gosto, mas o futebol hoje é assim. [ Resignado ] O futebol é assim, “cria coisas”... mas não é isso não, os jogadores são assim.

HB: Quais são os cuidados que você tem com a base? Porque a torcida vê a Copinha por exemplo e vê que tem 5 jogadores que pode jogar no time titular. 

MR: Porque hoje é gostoso você falar da base, você não quer falar lá de cima, mas não é fácil jogar. Mas todo clube é assim...

HB: Como assim?

MR: Todo  lugar é igual!! Veja como é que é, as pessoas esquecem, mas eu não. Há 3 anos, a imprensa pressionou porque o time do Corinthians estava uma merda, e diziam “tem que pôr uns moleques lá”. Aquele cara do canal 11, como é que chama?

Todos: Chico Lang. 

MR: Queimaram todo mundo.

HB: O que acontece?

MR: É que não pode cara! Não pode, tem que tomar todos os cuidados, tem que  preparar o cara. Essa camisa [ pega uma camisa do Palmeiras que estava na mesa ] é pesada. Você no pode simplesmente colocar o cara de uma vez. O moleque entrou agora 4ª feira, o Gabriel [ Silva ], porque ele já estava aqui. Ele treinou muito antes com os profissionais. Então ele já estava aqui. Então você não pode chegar simplesmente porque o jogador arrebentou na Copinha e colocar em campo. Não pode porque essa camisa é pesada, você não tem idéia. 

HB: É o psicológico?

MR: Claro, a camisa é pesada, são jogadores de 18 anos. E ainda machucou porque além da parte física tem o estresse, então aquela contusão que ele tem é a conseqüência da copa São Paulo e também do estresse. Então você tem que tomar cuidado com a pressão. O pessoal fala: põe! Mas a gente só vê quem chega, mas o caminho é muito longo.

E sabe por quê? Porque  técnicos mal preparados, técnicos que aceitam pressão de dirigente – tira esse, põe aqui. Mas não é assim isso daqui é muito pesado. Então todo lugar que eu fui é assim. Com o Nilmar [ Inter ] foi assim, com todos eles. 

[ De repente toca o celular e Muricy pede licença para atender. Ele diz: “ligação do Presidente, tenho que atender”. A conversa extremamente cordial e bem humorada dura alguns minutos e Muricy avisa que estava em entrevista para o 3VV e pede para ligar depois. ] .

JOTA: A gente acompanha futebol há tantos anos, você fez duas afirmações que eu nunca tinha ouvido de um técnico, pelo menos aqui que eu acompanho mais de perto. Você falou em custo benefício, nunca ouvi um técnico falar isso. Você identificou uma coisa que para quem como eu é historiador, uma  mudança radical que nós não estamos acostumados. Você falou que hoje a torcida quer um jogador raçudo. E você sabe muito bem do tempo que você jogava que a torcida exigia exatamente o contrário, então tinha que ter técnica.

MR: Claro.

JOTA: Aqui tinha que ser técnico para cair no gosto da torcida. Poderia ser quem fosse, se não fosse um jogador técnico, não virava ídolo. Então você identificou aí duas mudanças. Dentro da pergunta do jogador da base para quem é leigo como nós, somos metidos [ risos ] mas somos leigos. Para quem é leigo como é que você identifica? Porque para a gente vendo um jogo de juvenil você acha três caras iguais. Que cuidados que você tem? Como é que você identifica que esse vai ficar esse vai ficar no caminho e esse nem compensa investir?

MR: Não é uma matemática tão certa assim porque todo mundo erra. Quando às vezes você pensa em um juvenil que você aposta em um dá outro. Já aconteceu muito disso porque é um absurdo o que muda um jogador, o que ele oscila. Por exemplo, o Gualberto. O Gualberto é um jogador que era volante da base que estava quase para ser mandado embora. Ele  foi para Porto Alegre [ disputar um torneio entre categorias de base ] e o colocaram de zagueiro. Aqui ele já tinha treinado de zagueiro com a gente. Eu conheci aquele time que treinou aqui foi para lá, mas a expectativa maior foi em cima do João. Eu me interessei só prá ver  aquele campeonato – porque o time não era bom – não dava para ver direito, mas foi por causa do Gualberto só. Por quê?

3VV: Você já tinha essa impressão dele? 

MR: Eu fui ver o jogador. Ele treinava aqui comigo, mas eu queria ver como é que ele iria se portar porque aqui no treino não tem estresse, não tem torcida, não tem adversário. Então eu queria ver noutra situação. Por quê? Porque ele tem um biotipo que chama atenção. Um jogador comprido, rápido, técnico, ele é muito técnico. Então você não pode simplesmente desistir de um cara desses, você não pode desistir e estavam quase desistindo dele.

JOTA: No jogo com o Mogi Mirim ele parecia um veterano. A camisa não pesou nele? 

MR:  Aquele negócio da expulsão [ contra o Ituano ] foi coisa de novato. Ele também escorregou por causa do gramado, o juiz também foi rigoroso. Mas isso é coisa se novato qualquer um pode ter. Mas o que ele jogou nos primeiros 45 minutos é brincadeira! Um jogador que eu chamei no dia e falei "você vai jogar", o Leo estava em dúvida foi fazer um teste e não dava.

Então o que acontece? é o que eu falo ser viciado em futebol. Estava de férias estava com a cabeça desse tamanho porque tinha perdido um campeonato que era importante para o clube, para mim para todo mundo [ Brasileirão 2009 ]. Então eu até podia dizer, “não vou ver porra nenhuma porque estou de saco cheio de futebol”, mas eu fui ver.

E assim, o técnico tem que ser viciado. Tem que ver tudo. Acompanhar tudo, saber o que acontece nas bases. Por quê? Porque o técnico tem que ter o pensamento dele. Nesse caso, me mandaram outro para Atibaia [ referindo-se ao início do ano, na pré-temporada, quando mandaram um outro garoto para treinar com os titulares ]. 

Me mandaram outro, mas eu falei [ agora se entusiasma ] “eu quero o Gualberto manda ele para cá, não me interessa me manda o Gualberto para cá”. Aí falaram, “tá acabando o contrato”. Porra não interessa. Manda o Gualberto. Pode ser que eu esteja aí tendo um jogador importante para o futuro. Então é uma coisa que não é se você acha que vai dar certo ou não, mas é você ver e ser persistente! Não é só ouvir os outros, mas ir lá acompanhar, ver, porque cada um tem a sua paixão. É assim que funciona.

Então o que é que faz um técnico. Eu vi aquele campeonato que o nosso time que [ marcando nos dedos da mão ] 1. não era bom e 2. não chamava atenção para a gente; mas não me interessava se o time era bom ou não. Mas tinha um jogador interessante pro Palmeiras. Se eu não vejo o torneio lá no Sul eu não trago o Gualberto. Se eu não trago o Gualberto, amanhã ou depois o garoto tem o passe livre, e o Palmeiras perde um jogador que pode ganhar título, render pro clube. Pode até ser que ele não seja tudo isso que vimos também, mas a 1ª amostra dele foi muito forte! Em um time grande no Parque Antártica com a torcida exigente para caramba, dura, um zagueiro que não pode nunca errar, no primeiro jogo! Ele foi bem demais. 

JOTA: Ele tem 40 dias com o zagueiro, quem mudou ele?

MR: Ele que mudou. Quando nós fomos para Atibaia, por isso que é importante. Eu faço isso desde que fui para o Internacional. Toda semana no treino vem ou o juvenil ou infantil ou Junior treinar com a gente aqui. Então eu faço toda semana isso, mas não chama atenção porque eu não faço barulho para nada. O que acontece? Já conhecia mais ou menos os jogadores, mas só que aqui na nossa salinha que fomos para Atibaia eu conversei com o Parraga aqui (Jorge Porto Iparraguirre, das categorias de base). – Parraga, e aí?

Ele falou: - eu tenho um jogador que eu vou preparar para ser um baita jogador. Eu falei: - eu já sei quem é, é o Gualberto.

- É o Gualberto mesmo.

- Você não vai preparar eu que vou preparar porque vou levar ele.

Acontece que as pessoas veem as coisas diferentes. Não é que você conhece mais do que ninguém, mas você se interessa pelas coisas, você se interessa que o Palmeiras está precisando. Esse foi o argumento da diretoria, eu não posso chegar aqui e exigir da Diretoria– eu quero seis, sete jogadores – porque saiu um monte [ e fazendo ar sério ] e vai sair mais. Isso foi o que nós conversamos. A reformulação vai ser grande.  Então o Palmeiras não tem como trazer cinco, seis, não tem, então o que foi conversado na diretoria? Nós fizemos várias reuniões que nós temos que revelar jogadores. O Palmeiras tem que ter jogador do Palmeiras. 

A parceria é super importante [ referindo-se à Traffic ] mas o Palmeiras tem que ter jogador nosso [ apontando o dedo para o chão da Academia ] , está certo? Precisa ter jogador do Palmeiras. 

JOTA: Mas isso é tranqüilo? A revelação demora um pouco, mas a curto você está tranqüilo que a gente possa...

MR: [ interrompendo ] ... eu acho que essa safra que está aí e muito boa! A gente tem que ter paciência com ela, a gente não pode queimar essa safra. Outro dia nessa semana eu trouxe o Juninho, que é o técnico da Copa São Paulo.

JOTA: Que, aliás, fez um belo trabalho. 

“A parceria é super importante mas o Palmeiras tem que ter jogador nosso, está certo? Precisa ter jogador do Palmeiras.”

MR: Está fazendo um bom trabalho faz tempo, então eu fiquei conversando com ele quase uma hora ali [ apontando no sofá da sala ] porque tenho a idéia de trazer alguns moleques, mas queria saber o que ele acha, porque não estou lá no dia a dia. Quem manda é o técnico do dia a dia. Então eu falei para ele que tenho a visão desse, desse e desse, o que você acha? Então ele falou que eu tinha razão desse e desse.

3VV: Você tem ascendência sobre as categorias de base?

MR: Não, aqui não é assim, mas eu acompanho muito as categorias de base e respeito muito o que os treinadores pensam e fazem.

3VV: Por exemplo, o [ Carlos ] Bianchi, quando era treinador no Boca fazia questão de ter  no contrato que ele mandava desde as categorias de base até o time profissional. Ele queria muito acompanhar o jogador mais ou menos nessa linha até chegar ao ponto de querer influenciar no padrão tático que deveria ser o mesmo para as categorias de base até o profissional. Você gosta desse modelo? Você acredita nesse modelo? Você acha que faz sentido?

MR: Primeiro que acho que técnico não precisa disso. Já me falaram várias vezes se eu queria isso e eu não quis. Mas lancei vários jogadores, vários. E é obrigação do técnico, mas eu acho meio esquisito porque alguns técnicos ganham com isso... 

3VV: [ interrompendo ] o Bianchi tinha parte da remuneração pela venda dos jogadores.

MR: É eu sei. Mas isso daí é meio esquisito. Ele pode querer lançar o seu, mas não lançar o outro jogador, uma puta confusão. Aí aparece um garoto bom que não veio da base e ele não vai querer lançar... Agora eu acho obrigação do técnico acompanhar as categorias de base. Então ele não tem que ter isso no contrato, mas tem que acompanhar.

Eu não tenho no contrato, mas eu acompanho a base, eu trago o cara  para treinar comigo. Isso é uma coisa minha, não me pediram para fazer, ninguém pediu para eu fazer, mas eu faço porque eu acho que é interessante para o clube porque é só assim que se descobre jogador. Eu conversei com o Juninho aqui um tempão, e perguntei de alguns jogadores. Tem jogador [ do time da Copinha ] que está no ponto, mas tem jogador que não. O Ramos por exemplo que é um jogador interessante. Mas ele às vezes participa pouco do jogo. Repara que o cara na televisão às vezes fica 5 minutos sem falar o nome dele. Isso não pode.  Então só pega a bola, dribla e chuta?  

Então o jogador tem que ser orientado, tem que treinar, porque não pode um jogador ser só de uma jogada. O treinador adversário assiste o jogo e fala – está vendo aquele número 10? Ele só tem uma jogada que ele arruma com o pé esquerdo e solta a porrada, então marca essa jogada.

Então ele tem que ser orientado, treinar jogada em profundidade, treinar jogada em diagonal,  aprender a vir buscar mais a bola.

JOTA: E consegue mudar isso?